Duas Grandezas
Num extremo da sala, quase na quina, no encontro das paredes, uma placa de aço com tamanho de 1 m2. A placa é quadrada e pende no espaço, inclinada em cerca de 45º em direção ao solo. Ela pesa 130 quilos e o que a mantém suspensa é um cabo de aço preso ao centro de uma de suas arestas. A linha atravessa a galeria, acompanhando o desenho da mesma até chegar ao seu extremo diametralmente oposto, no qual uma estrutura de tecido, também no formato quadrado, é submetida à tensão da placa de metal. O tecido, uma elanca negra com propriedades elásticas acentuadas, tem 9 m2 e está totalmente preso à parede pelas bordas; a parte ligada ao cabo é a central - a que está no meio da dimensão do tecido. É ela, também, a que mais expressa os efeitos do retesamento entre as Duas Grandezas que dão título à instalação que Túlio Pinto apresenta na Galeria Iberê Camargo, em Porto Alegre. A descrição sumária simplifica e parece esclarecer formalmente a proposta do artista. Ledo engano.
Como escultor, Túlio está permanentemente atento às relações entre os corpos e o espaço. E, sobretudo, em como as propriedades dos materiais muitas vezes definem essas relações. É o que vemos em seus trabalhos recentes, a grande maioria inédita e montada unicamente no Atelier Subterrânea, espaço que divide com outros cinco jovens artistas. Estruturas de concreto, madeira, cabos e chapas de aço são seus materiais primordiais, que vão sendo articulados, desmontados e novamente organizados de múltiplas formas, na criação de trabalhos que discutem substancialmente as mesmas questões. Tensão, pressão, equilíbrio e espaço são evocados a partir da inter-relação entre pares de materiais e de forças.
O mesmo acontece em Duas Grandezas. Na instalação temos, de um lado, aço e, de outro, tecido; de um lado peso e, de outro, leveza; de um lado uma placa de 1 m2 e, de outro, uma extensão pelo menos três vezes maior. Ligando-as, apenas um cabo de aço, que tanto faz o balanço entre as partes, como acompanha as linhas da sala, sugerindo uma grade imaginária. Observando o cenário montado, podemos supor o que acontecerá: paulatinamente, procurando manter a estabilidade da placa de metal, o tecido se deformará.
A situação criada sugere conseqüências, mas estas também podem ser imprevisíveis. Nesse e em tantos outros pontos, percebe-se na poética de Túlio a referência à monumental obra de Nelson Felix, um dos nomes basilares da escultura contemporânea brasileira.
Assim como Felix, Túlio propõe situações que escapam aos desdobramentos cotidianos. E, nesse procedimento, o viés simbólico evidentemente desponta. Se, num primeiro momento, diante de suas obras, somos tomados pelo encanto formal provocado pelas contraposições entre tão distintos materiais e pelos requintados desenhos no espaço, num segundo estágio a indefinição das relações estabelecidas nos remete à nossa própria realidade. Muitas são as dimensões sugestivas de seu trabalho, mas talvez a mais evidente nos provoque a pensar, inclusive, do que são feitas não apenas as estruturas que nos rodeiam, mas nossos próprios alicerces, certezas e relações, reforçando a idéia centenária de Karl Marx, de que tudo que é sólido desmancha no ar...
Paula Ramos
Jornalista e crítica de arte
Porto Alegre, maio de 2009
