ETÉREOS e CONDENSADOS

A pintura de Diego Nolasco desdobra-se assinalando características distintas constituídas por silêncios e murmúrios. A primeira é provocada pela indagação sobre a ausência de um objeto reconhecível e, neste encadeamento, a pintura se esvai, transformando-se em uma paisagem etérea; a segunda discorre da interrupção na matéria condensada, pelo gesto de retirar a tinta desenhando com os dedos.
Apesar da dualidade, o afastamento e a proximidade conspiram na forma de apreciarmos suas pinturas. Na distância, a cor se sobressai nos movimentos circulares que se expandem para fora da tela e de muito próximos, nos possibilita entrarmos nas minúcias do gesto.
Em seu processo criativo, a pintura desenvolve-se pelas regras que o artista se impõe, como num ritual onde a tinta é depositada com a bisnaga sobre a superfície branca em quantidade generosa, no sentido da escrita, ou seja, da esquerda para a direita. De modo sutil, as linhas sinuosas são delineadas dando forma à pintura. O óleo de linhaça e o secante cobalto são gotejados sobre a matéria produzindo a mistura que será retirada mais tarde. Os dedos hábeis elaboram os desenhos e os movimentos. O artista usa, também, pedaços de pano para subtrair a tinta originando nuances de cor. Deste artifício técnico resulta um duplo movimento onde a composição abre-se e projeta-se à frente, ao mesmo tempo em que o dinamismo divide o espaço interno, alternando as manchas e os desenhos provocados por pequenos gestos repetitivos.
Diego desafia. Sua pintura aborda dois sentidos diferentes, no que tange à visibilidade: a visão e a percepção. Este jovem deseja que compartilhemos, por meio dos sentidos, todas as essências que habitam o mundo, tanto as visuais como as sensoriais. O profundo em sua pintura, como diz Sérgio Milliet, tem a intenção de instigar, “... de travar sobre a tela a emoção como através de um acorde musical transmiti-la a outrem. Como se transmite a emoção da música sem delimitações precisas, nem insinuações de assunto.” (MILLIET, p.251). É neste contexto que a pintura se insere. Passa a ter melodia própria quando se mostra em movimentos sensoriais que ultrapassam o racional numa experimentação de ritmos sensíveis. O toque na tinta assume o papel de instrumento para que isto aconteça, fortalecendo a relação de cumplicidade entre pintor e pintura.
A arte contemporânea pontua poiéticas individuais e a originalidade da técnica conduz de maneira inequívoca ao seu autor que, nesta série, busca nas semelhanças, a diferença fundamental para novos trabalhos, em contornos pessoais, de marca própria onde o gesto identifica o artista numa relação de cumplicidade entre pintor e pintura.
REFERÊNCIA
MILLIET, Sérgio. Considerações sobre o abstracionismo in Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos 50. Orgs. COCCHIARALE, Fernando. GEIGER, Anna Bella. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1987, p.248-251.
