HL Fuhro: Silêncio na arte

O pintor Henrique Leo Fuhro, morto em junho, foi bem mais que um simples representante gaúcho da Pop Art


por JACOB KLINTOWITZ
As figuras são extraordinariamente nítidas, precisas, parecem recortadas com bisturi, desenhadas a partir de uma grande concentração mental e de um foco de tal maneira preciso que nos impacta de imediato. Poucos artistas de sua época terão elevado à linguagem tão refinada e à reflexão artística os retalhos e resíduos míticos que emergiram e sobreviveram nas histórias em quadrinhos quanto o artista gaúcho Henrique Léo Fuhro (no desenho acima, um auto-retrato).

Estas figuras multiplicadas, desdobradas, refletidas em um universo de ocultos espelhos estratégicos e que habitam como superfícies referenciais o universo mental do artista. E, no entanto, deste contexto estridente da mídia contemporânea, destas histórias em quadrinhos pontuadas de sons e imagens onomatopaicas, depreende-se uma atmosfera de quietude, uma construção feita de silêncio. Um mundo metafísico que se apresenta completo e modelar a nos oferecer um sistema universal capaz de nos sinalizar.

Certamente, como todos nós, também Fuhro, com a sua arte, tateia sombras à procura do sentido último da realidade, mas poucos, como ele, estabeleceram um sistema conceitual tão completo e seguro de si mesmo.

Em 2002, quando o artista se encontrava em estado de coma, e foi organizada por Renato Rosa e a galeria Via Livia uma exposição de suas obras, a nitidez do contorno das figuras perdera a precisão e esta manifestação de fragilidade da condição humana agregava ao seu trabalho uma nota comovente, e evidenciava um novo aspecto ao seu unitário universo, o valor da convicção. Ainda que prejudicado o encadeamento muscular, a vontade mantinha o foco da investigação. Semelhante ao que encontramos em Degas quando, quase cego, cria a sua magnífica série de esculturas de bailarinas abrindo novos caminhos para a tridimensionalidade. Ou Matisse, velho e trêmulo, recorta figuras que comporão suas colagens e recortes.

A Pop Art articula a sua gramática a partir da iconografia de massa e urbana, como objetos domésticos, embalagens, imagens publicitárias, comics, prédios, trânsito, cenas jornalísticas, personagens públicas, etc. De fora para dentro. É o que permite ao artista pop um tratamento distanciado, uma acentuada frieza e objetividade. Ele registra o objeto-ícone-signo e o faz sem repassar a emoção profunda. Recolhido no entorno, tratamento técnico. É o que pode ser observado nos grandes artistas pop: Rauschemberg, Hamilton, Andy Warhol, Roy Lischstein, David, Mauricio Nogueira Lima, Ivald Granato, Rubens Gerchman, Robert Indiana, Jasper Johns, Claudio Tozzi, Wanda Pimentel, Raimundo Collares, Geraldo de Barros, Wesley Duke Lee, Lygia Pape. E é exatamente nesta questão essencial que H.L. Fuhro se diferencia.

Ele também é objetivo e distante e igualmente recolhe os seus signos no entorno. Mas ele constrói uma cosmovisão única e inédita. Ela nasce com o artista. E é um universo particular, identificado, construído a partir de alguns dados do repertório comum a todos, mas de forma renovadora. E o conjunto sinaliza uma metafísica do humano, uma consideração sobre a natureza humana. Nada disto faz parte da história da pop ou do seu ideário. A pop não indaga sobre esta questão e nem parece acreditar que ela exista. Fuhro pergunta e propõe questões sobre a persona-máscara, o humano enquanto ser e o ser como representação da função social. Em resumo, Fuhro elabora sobre a existência do Self como centro e partícula única e diferenciadora e o Ego como função, elemento e característica niveladora e banalizadora.

Henrique Léo Fuhro sempre afastou-se de todas as correntes, grupos, entidades, associações. O seu espírito voltado para a verdade e para a pesquisa não suportava os jogos sociais, as conveniências, o simples trato cordial com acordos paroquianos. É claro que isto criou uma atmosfera de má vontade e incompreensão com a sua arte e sua vida. O que realimentava o seu percurso de lobo da estepe. Algumas pessoas são assim, como o Fuhro, têm a epiderme tênue demais para o nosso mundo. E este solitário artista, leitor voraz, pensador implacável e claro sobre a vida e o social, era delicado na amizade, generoso ao considerar a obra de outros artistas e extremamente cordial com os pecados da tribo. Apenas não suportava a comédia social e se recusava às pequenas mentiras do cotidiano. Curiosamente, ele sabia tudo do mundo, mas era de uma ingenuidade infantil na ação que o acompanhou por toda a vida. Um amoroso que se autocondenava ao isolamento.

É possível dizer, por facilidade classificatória, que Henrique Léo Fuhro é um artista de filiação pop. Mas estaríamos enriquecendo a Pop Art de ouros dos quais ela nem mesmo sabe que existe. É mais verdadeiro dizer que Fuhro bebeu nas mesmas fontes iconográficas da pop, pescou no mesmo oceano, mas transformou os seus peixes em corpos iridescentes de luz e nos incandesceu com um ritual original, encantador, inesgotável e solar.

Texto publicado na Revista APLAUSO - Edição 77- Agosto/2006
Uma homenagem da Chico Lisboa

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