O lugar da arte, o nosso lugar.
Por André Venzon
A lei de autoria do Vereador Raul Carrion para a colocação de obras de arte (escultura, mural, pintura, gravura, etc.) em edificações privadas com área adensável superior a 2.000m², recentemente aprovada por unanimidade na Câmara Municipal e sancionada pelo Prefeito, vem resgatar, através da arte, um elo perdido entre a cidade e suas construções. Pois esta lei nos torna mais cidadãos na medida que tomamos consciência do espaço ao nosso redor, a partir da relação com uma obra de arte, que passa a representar poeticamente o lugar onde moramos ou trabalhamos, o nosso lugar. Instituindo esta lei estaremos fazendo um esforço sim, mas muito além daquele financeiro, para recuperar o valor simbólico do nosso modo de perceber e pensar a cidade e a sociedade em que vivemos, a ponto de, quem sabe, reaproximarmo-nos da polis grega que não fazia as esculturas para suas construções, mas as construções para suas esculturas.
No entanto, é importante refletir sobre o porque se faz necessária esta lei? Porto Alegre já não tem obras de arte pública suficiente? E o problema que enfrentamos do vandalismo e das pichações aos monumentos históricos? Parece-me fundamental estas interrogações para refletirmos se o que está em jogo são mais obras de arte na cidade, ou algo que com elas restabeleça um diálogo cultural e educativo entre a cidade e nós mesmos.
Atualmente, nossa cidade enquanto corpo coletivo despreza a arte, e a recente onda de vandalismo generalizado que observamos em relação aos seus monumentos públicos é sintomático neste caso. Ao meu ver existem duas causas bem definidas para esta situação. A primeira deve-se a administração municipal, que herdou na pasta da cultura um projeto ideológico, sem memória, pseudo-revolucionário, que nos últimos anos, não descentralizou, mas pulverizou de forma arbitrária e, portanto, antidemocrática, a linguagem do graffiti, embaçando a paisagem urbana a ponto de hoje não existir local público que esta manifestação popular não prevaleça sobre qualquer outra expressão cultural. Assim, temos uma política pública que ao abrir concessão a um movimento global, como o internacional hip-hop, fomenta indiretamente ações urbanas que convivem juntas ao graffiti, do tipo das pichações, que usam do mesmo suporte e estigma marginal (periférico) para se legitimar, criando conseqüências terríveis para a preservação do patrimônio artístico-cultural da cidade (exemplo o Viaduto da Borges de Medeiros totalmente pichado após poucos anos da sua restauração). A outra causa é devida à iniciativa privada, que prefere se fazer de vítima romântica em meio a um lucrativo terrorismo sócio-cultural. Então a construção civil passa a apostar em um mercado imobiliário histericamente preocupado com a segurança privada, construindo oásis de tranqüilidade em meio ao caos da metrópole. São os não-lugares, ou paraísos-artificiais, que vão do “seu estilo neoclássico de viver” ao up-to-date do trabalho, investindo alto na proteção dos condomínios fechados. Nunca se construíram tantos! Verdadeiras ilhas de segurança (prisões) que atraem aqueles que buscam esquecer que como seres-humanos precisamos ser vulneráveis ao olhar do outro. E a arte é exatamente este meio de se estar vivo para o olhar do outro. Porém as pessoas desaprenderam a se relacionar pela arte, pois estão usando como plataforma de vida uma auto-imagem de felicidade montada sobre o fascínio consumista, onde as próprias obras de arte perderam lugar para os bens não-duráveis de consumo, e tanto faz o valor monetário, desde que seja novo, para se estar na moda!
Enquanto isso, os espaços públicos de convivência, as ruas, praças e parques desaparecem sob a ameaça dos diversos problemas sociais resultantes deste sistema capitalista opressor (sem-tetos, prostituição, drogas, assaltos, etc.) que afligem principalmente aqueles que não tem mais nem a própria imagem para consumir. Diante desta realidade, nós artistas, perguntamo-nos: qual é o nosso lugar? Acredito que atuar no espaço desta relação entre o público e o privado, este é o nosso lugar! Senão o fizermos deixaremos de ser o que somos, pois estaremos abandonando a cidade e a nós mesmos. E esta lei é um meio para não fazermos isto. Ela nos representa e, no caso deste projeto, garante algo que só a arte pode fazer pelo espaço urbano: transformar os muros e as grades das novas construções de Porto Alegre, enfim toda a espécie de espaço vazio de emoções, em poesia.
André Venzon
Presidente da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa
