Os que têm olhos.

Por Jacob Klintowitz

A obra de Fernando Pacheco é marcadamente a descrição de uma saga pessoal, do caminho do artista em direção a descoberta de seu núcleo essencial, o contato com a verdade última de sua alma. Não é uma característica determinante no seu trabalho a resposta às situações políticas e sociais. A sua pintura é o exercício no qual o artista se descobre, é onde o ser se revela para ele mesmo. A sua pintura é forma e o caminho mítico do herói. Todo o dia, Fernando Pacheco enfrenta os obstáculos e as suas provas, e a recompensa pela fidelidade de propósitos é justamente o encontro consigo mesmo. A saga do herói é exatamente este percurso simbólico no qual, superadas as provas e etapas, ele encontra a sua própria dimensão maior. No caso de Fernando Pacheco, não só ele faz claramente o percurso em direção à ampliação de sua consciência, como sempre retorna para o seu atelier. Ítaca. Como Ulisses, ele escutou o Canto das Sereias, pois é o som mais forte da sociedade de consumo, mas não necessitou ser amarrado para resistir.

Neste processo podemos chamar de processo esta atividade continuada Fernando Pacheco promove cotidianamente sistemas e ações de separação, destruição, desmantelamento de objetos, de cenários e de conceitos. Ele desintegra o conceito de funcionalidade, o objeto deixa de ser retrato, sandália, papel de embrulho, embalagem, pedra, osso, revista, encarte publicitário, ícone religioso de culto, elemento decorativo, e torna-se referência visual, escala cromática e estrutura espacial. Aquilo para o qual foi designado, o seu destino social, é destruído.
O lugar, o ambiente social, o cenário que abrigaria a função ou o objeto perde o sentido, pois nada mais há para abrigar. Foi criado para esta sociedade, mas já são incompatíveis. O teatro do mundo, a manifestação do universo social para o público, perde a condição de representar a realidade. Da mesma maneira como a encenação contemporânea tende a substituir o teatro do mundo por uma representação de iniciação metafísica, espiritual e psicológica, Fernando também retira a autoridade didática do cenário, do teatro do mundo.

Como a obra de Fernando Pacheco obedece, fundamentalmente, à sua intuição, nós encontramos nela uma diversidade de referências vitalismo, panteísmo, art brut, surrealismo - e ela não pode ser compartimentada sob uma rubrica geral, como o expressionismo. Talvez, se pensarmos que o expressionismo não é um movimento perfeitamente definido e que nele cabe quase tudo, até o cubismo, este rótulo valeria para todos, inclusive Pacheco. Mas se for entendido, como é o mais comum, como a ênfase na emoção que subordina todos os outros elementos da arte, e entendida a emoção como transbordamento, então poderíamos dizer que Fernando Pacheco é também, mas não unicamente, um expressionista.
E se o expressionismo for entendido como uma atitude e não uma escola artística, como é o mais correto, então quase toda a arte do século vinte é expressionista. É preciso notar, entretanto, é que esta atitude em relação à vida tem algumas características. No que se refere ao seu acentuado conteúdo de contestação sócio-político, tão marcante na história européia e na América Latina, diminuirão os pontos de contato de Fernando Pacheco com o expressionismo.

Fernando Pacheco, objetos e pinturas construídos por associação visual, por semelhança conceitual, por aproximação etimológica, por referência lingüística. Objetos e pinturas criados em desacordo com as convenções sociais e com o senso comum de natureza surreal. Memórias visuais e afetivas da remota infância: procissão, Aleijadinho, portões, pratas, ouros, volutas.

Gavetas do cemitério que tanto impressionaram o menino Fernando em São João del-Rey, Minas Gerais, cidade barroca de volutas, ouros e pratas.
Evidente a relação com as atuais gavetas no atelier do artista. O que elas guardam? Quase tudo, meus senhores. Coleção de resíduos e antigas emoções: caixas velhas, embalagens perdidas e achadas na rua, bonecos comuns, bonecos populares (dragões, São Jorge), medalhas, barbantes, fitas decorativas, folhas soltas de revistas, papel laminado colorido de bombom, enfeites de festas, retratos de pessoas desconhecidas, obsolescências jogadas fora. Matéria inútil. Mecanismos mortos. Corpos à espera do artista. Organismos que serão ressuscitados.
Antigas emoções, emoções atuais. A emoção do artista.

O processo criativo de Fernando Pacheco é complexo, pois ele se alimenta de resíduos, objetos duplicados, identificações de essências e ações emocionais. É acumulativo, associativo e emocional. A rapidez que se adivinha no seu trabalho, não é a pressa de execução, mas a sensação de que tudo foi concebido num único instante. A percepção do espectador de um movimento rápido, não é senão a tradução, no observador, da unidade de concepção. Tenha ocupado o tempo que for na execução, e seguidamente este fazer deve ser exaustivo, a integridade do resultado nos leva a afirmar que a concepção se deu num só momento.

Aproximações.
Música. Bateria. Ritmos.
Rituais como o de Mondrian com o tango e a geometria.
Influências e afinidades.
Nello Nuno, extraordinário pintor mineiro, dotado de domínio expressivo das texturas e com uma qualidade única, a de definir e entrar imediatamente no tema. A objetividade de Nello Nuno é a do pintor. Ao contrário do senso medíocre, a pintura é objetiva, enquanto a convenção que vê o mundo como ele pretensamente é, é uma construção intelectual. O pintor é objetivo, a sociedade é subjetiva.
O francês Henri Matisse e o seu encantamento pelo bizarro, peças de pouco valor, recortes de papel, exotismo. Um tecido negro e ouro, imagens florais, a odalisca reclinada. E, já quase cego, com visão reduzida, a fazer os recortes de papel que se transformam em pinturas.
O alemão Richard Lindner, depois francês, finalmente americano, e a crueza de suas imagens, o domínio do mental sobre o retrato naturalístico, a crença absoluta na pintura como manifestação do pensamento, o entendimento do mundo dos homens como objetivo do pintor.

A pintura de Fernando Pacheco está impregnada de um motivo central que se repete, assume o comando, deixa vestígios na sua iconografia: o olho. E a visão. O olho, recorrente na sua pintura, relaciona-se com os seus vários assuntos, o pianista, a noite, os personagens, as brincadeiras. É parte fundamental na sua simbologia. Fossemos relacionar as pinturas onde o olho está presente, ora como personagem principal, ora secundariamente, como um signo histórico do artista, teríamos que fazer um verdadeiro inventário.

Para o senso comum a cegueira é uma deficiência física que faz o portador ignorar a realidade visível do mundo, não saber, não ter noção do contorno das coisas, dos obstáculos, do aspecto das pessoas, do ar de piedade ou de troça. No uso corrente, na extensão do conceito, cego é o que não vê, o pouco inteligente, o que não percebe nada, o tolo, o marido traído.
E, no entanto, para muitos, entre os quais eu me incluo, o cego pode ser entendido como aquele que não se fixa na aparência das coisas, no impermanente, no temporário, mas tem a visão interior, o olhar voltado para o rico universo do invisível, do saber oculto, da verdade interna, do Deus interior.
Homero, o poeta cego, é símbolo do artista que narra o mito. Tirésias, o velho sábio, vidente, é cego. Édipo ao ser confrontado com o tabu, com o incesto ainda que involuntário, ao descobrir que não dominava o destino previsto pelo Oráculo ao qual desafiou, fura os próprios olhos. Cego para o mundo, iluminado para a vida interior. Em Édipo em Colono, de Sófocles, é a ação de Édipo cego, simbolicamente em busca do seu caminho, guiado por sua jovem filha, que desmascara Creonte e afirma o seu direito à existência e o dever da proteção do Estado.

O Olho de vidro do avô do meu amigo: o olho que vê.

O olho, órgão de percepção visual, todos conhecem. É o símbolo da percepção intelectual. O Terceiro Olho, o Olho Frontal, o Olho de Shiva, é do conhecimento dos que se interessam por assuntos não convencionais, por civilizações míticas, por histórias de magia, pelo desenvolvimento da espiritualidade. Na década de 60, com o movimento hippie, o Olho de Shiva fazia parte do código comum: alguns faziam exercícios especiais, copiados de tratados místicos, e outros pretendiam o domínio da capacidade de abrir o Terceiro Olho de seus discípulos. E há o Olho do Coração, sede da emoção, da intuição e onde aparentemente habita o Deus Interior. No coração se encontra a verdade e, em certas disciplinas de espiritualização, existe o Caminho do Coração. Todos os três olhos recebem a luz espiritual.
Os que têm olhos, é uma maneira de designar os Xamãs, os clarividentes. Aqueles que tem olhos de ver podem chegar ao saber profundo. Em várias religiões, o sol e a lua, simbolizam os olhos de Deuses. O Sol, a atividade e o futuro. A Lua, a passividade e o passado. O Terceiro Olho é a resolução, é a percepção unitiva.
O Olho Único, sem pálpebras, é o símbolo da Essência e do Conhecimento Divino. Inscrito num triangulo, é o Olho de Deus. O Olho Divino que tudo vê, costuma ser representado pelo Sol: o olho do mundo. O Olho do Mundo é o buraco no alto do domo, Porta do Sol.

O primeiro contemplador. Títulos de pinturas, sempre depois da pintura feita. Títulos não descritivos e não temáticos. Não foram deles que as pinturas nasceram. Título dado pelo primeiro contemplador, Fernando Pacheco.
A primeira visão.
O primeiro contemplador olha o olho da pintura.
Símbolos: o olho.
O olho de vidro.

Compartilhar