Literárias, Literais, Visuais: Narrativas de Ficção e Transitoriedade

* Bianca Knaak

Apresento o trabalho de Paulo Gomes e não sei por onde começar. Sua obra é sempre um convite para que se tome partido das coisas. Coisas narradas visualmente em textos que vertem histórias e imagens. O desafio de começar se dá ao reconhecermos o jogo entre a imagem vista e a interferência escrita, que comenta vestígios documentais da vida alheia. Ali, seja nas fotos anônimas sobre uma mesa de trabalho, no Idílio Chique de um poema censurado que disfarça seus versos em língua estrangeira ou no texto atópico de uma carta ou livro, manuscrito ou impresso, funde-se à dúvida que preenche os desvãos da realidade a criteriosa veracidade da ficção.
Ficção historiográfica: eis a fugacidade de ser no tempo, ativo e criativo em transitoriedade. Talvez metaficção-historiográfica...
As escrituras pessoais das quais se vale o artista, em gesto deliberado de apropriação e instauração de sentidos, são também um resgate do instante particular e particularizado do personagem e do jogador.
Imagens em composições inominadas onde, literária e quase cinematograficamente, a decupagem das cenas ilumina histórias com outras histórias. Para visitar a exposição de Paulo Gomes comece por onde preferir, pois todos os trabalhos são vias de acesso e reconhecimento. Obras prenhes de biografias.
Porto Alegre, setembro de 2000.

*Bianca Knaak, professora e pesquisadora da FAV/UFG.
Mestre em Artes Visuais e doutoranda em História pela UFRGS

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