O GESTO EFETIVO NA INTENÇÃO FICCIONAL DE PAULO GOMES

*Bianca Knaak

No recente trabalho de Paulo Gomes encontramos uma narrativa que nos encaminha para um significado armado, oculto ou ocultado pelo artista. Ao mesmo tempo em que este faz da escrita um gesto construtor de um caminho disfarçado, também comprova, inequívoca, a leitura desse significado. Tão logo conquistemos o fio da meada, o vestígio, a pista certa que nos dará o risco da decodificação. Complexo, esse trabalho em amálgama instaurador, busca princípios e procedimentos próprios desse tempo (histórico) convulsionado. Aqui encontramos a repetição, a apropriação e a justaposição numa obsessiva captura do tempo, estremando os sentidos da ficção e da cena pós-moderna. A palavra, talvez o foco primeiro dessa exposição, ali está para revelar/velar/re-velar/velar o indivíduo. O indivíduo subjetivo ou indivíduo objetivo ou o indivíduo possível nesse discurso que se traça reto, mas reticente. Precisamos de uma abordagem mais abrangente, que dê conta de um entorno de referências teóricas, intelectuais e subjetivas e da sensibilidade que traduz o artista "tramando" no silêncio de seu ateliê...
Sabemos que o pós-modernismo traz muitas variantes para um cenário que promove o indivíduo em suas peculiaridades e necessidades únicas, deslocando-o de um sentimento coletivo de participação e atuação.
A ordem é diferenciar-se, na extrema valorização de um "eu" referencial, mono e quase esquizofrênico. O elogio à diferença é narcísico e mal disfarça uma intenção social desarticuladora e enfrequecedora. Vem reforçado, pela guetização da sociedade em grupos étnicos, religiosos, artísticos, sexistas onde, por um caminho avesso, o indivíduo é chamado à participação e cidadania pelo engajamento em manifestações pontuais e movimentos humanitários, ecológicos, étnicos e etc., pulverizados pelo planeta Terra. Assim, ao mesmo tempo que o indivíduo é requisitado, a individualidade exaltada, abastecendo identidades e alteridades, também se promove a relativização de sua subjetividade e o enfraquecimento de sua humanidade. A problemática posta, é típica desse momento.
Nas artes visuais o fenômeno das identidades não identitárias se acentuam pela globalização de referências que desterritorializam e massificam culturas em hierarquias mais ou menos explícitas. O artista, meio para a consolidação dessa visualidade, é chave para o fetiche que recai sobre sua produção. Uma produção que é divulgada por sua condição ímpar, internacional, individual, autônoma, mas que acaba, inevitavelmente, neutralizada por regras endógenas ao sistema de circulação e legitimação da mercadoria artística. Assim, o artista é seu próprio e a auto-referenciação se torna imperativa à produção.

*Bianca Knaak, professora e pesquisadora da FAV/UFG.
Mestre em Artes Visuais e doutoranda em História pela UFRGS

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